Homenagem ao Dr. Sizenando

Não foi por mero acaso que a Festa Anual da Escola de Música passou a ser no dia 5 de Outubro desde o ano 2000.
Sendo feriado nacional, em S. João de Loure era dia de festa rija promovida pelo saudoso médico Sizenando Ribeiro da Cunha, que comemorava a implantação da República. Era vê-lo, na frente da Banda Velha União Sanjoanense percorrendo as ruas da freguesia numa atitude de efusiva alegria contagiando a população. Quem viveu esse dia de festa de arromba durante anos, não mais esquecerá. Esta recordação tão intimamente ligada à Banda Velha União Sanjoanense fez com que os seus directores elegessem o dia 5 de Outubro para a Festa Anual da Escola de Música.
Mas quem foi o Dr. Sizenando? – perguntarão os mais novos.
Sizenando Evaristo Rodrigues Ribeiro da Cunha nasceu em Ouca, Vagos, em 12 de Março de 1916. Era filho do distinto médico Carlos Alberto Ribeiro da Cunha e de Maria Joaquina Rodrigues, que residiram em Eixo até à morte. Quando casou com D. Vergília Maria Andrea Manta de Andrade Pais veio residir para S. João de Loure numa casa arrendada no Largo 5 de Outubro, assim chamado em sua homenagem após o 25 de Abril de 1974. Mais tarde edificou a sua residência e a Clínica, que ainda hoje ostenta o seu nome. Este Médico trabalhou sem horário nem fins-de-semana, a todos acolhendo com o mesmo carinho e disponibilidade. Era o consolo e a salvação dos doentes necessitados, a quem acudia gratuitamente a qualquer hora do dia ou da noite com o seu saber, a sua “farmácia” e muitas vezes outros bens materiais, contando sempre com a prestimosa colaboração da sua dedicada esposa, carinhosamente chamada D. Gila. O casal teve dez filhos, que criou com desvelo. Porém, a morte surpreendeu-o demasiado cedo. Faleceu a 30 de Maio de 1969, com apenas 53 anos.

Foi com grande prazer e sentido de justiça que o povo desta freguesia contribuiu para homenagear o Dr. Sizenando, colocando o seu busto em frente à primeira habitação/consultório em S. João de Loure, ao lado da Clínica (ver recorte 1 , recorte 2, recorte 3). O Dr. Sizenando foi um Homem Bom. “Foi um coração universal” frisou Querubim Silva no discurso proferido durante a cerimónia de inauguração do busto, a 5 de Outubro de 2007.


São João de Loure
Homenagem ao Dr. Sizenando
05-10-2007


Estimados Familiares do saudoso Dr. Sizenando

Ex.mos Representantes do Poder Local

Senhoras e Senhores

Tomo a palavra, não apenas correspondendo ao honroso convite de quem iniciou o movimento desta homenagem, mas também por imperativo de consciência, na qualidade de Pároco de São João de Loure e Arcipreste de Albergaria, na medida em que a irradiação da figura do ilustre homenageado marcou profundamente esta Comunidade humana e a correspondente Comunidade cristã. Estou aqui porque a vida, embora breve, do Dr. Sizenando foi um exemplo existencial, é uma memória persuasiva e estimulante, de quem, à semelhança de Jesus Cristo, não veio para ser servido, mas para servir: com o seu saber, com o seu carinho e dedicação, com as portas abertas da sua casa e a carteira e os bolsos dos seus haveres.

Foi um coração universal. Nascido em Ouca e tendo escolhido Eixo como terra de adopção, foi em São João de Loure, onde passou a residir e a exercer o seu serviço após a conclusão do curso, que iniciou esta caminhada galopante até ao renome conhecido ao longe e ao largo, desde um pequeno consultório no rés-do-chão da sua residência até à Clínica que justamente ostenta o seu nome.

Diz Mons. João Gaspar, o qual privou bem de perto com o homenageado: “ Logo desde início, à sua casa a dor e a desventura faziam romaria, na antecipada certeza de aí se encontrar bálsamo e consolação. Mas o Dr. Sizenando não se limitava a esperar que fosse apenas o cortejo dos mortificados a transpor a sua porta; ele próprio, com ânsia incontida, com extrema ligeireza e com singular bondade, galgava para a rua e vinha ao encontro de desgraças que pudesse minimizar, com a simplicidade de quem cumpre um elementaríssimo dever.”.

Dois factos apenas, para vincar a generosidade sem medida do seu coração.

1 - Com a ousadia da juventude, decidiu assumir o risco, perante a crítica e o escárnio de alguns colegas, de, em Eixo, tentar salvar a jovem Leontina, já em coma, a qual contraíra o tétano. Os meios da época não permitiam veleidades. Mas a dedicação, o saber e a persistência do Dr. Sizenando venceram… e a Leontina voltou a ser jovem!

2 - Com o P. António Gonçalves Pereira, ao tempo Pároco de Eixo, fundou nesta Vila nossa vizinha, a Sopa dos Pobres. Foram centenas e centenas os estômagos, de crianças e adultos, aconchegados com o calor de uma sopa diária. E, quando a cobrança aos sócios escasseou ou se extinguiu, foi do seu próprio bolso que a instituição viveu.

Para além desta benemerência sem par, era notória a sua generosidade para a festa da Sr.ª das Neves de Eixo; e todos sabemos como, afrontando a política proibitiva do tempo, sempre proporcionava aos Sanjoanenses e aos vizinhos a celebração festiva do 5 de Outubro.

Dava do seu bolso; e dava-se, sem medida, como se reconhecesse aos carenciados o direito a usufruírem do que ele tinha e do que ele era. Num tempo, como o nosso, de vincado egoísmo, de falta de solidariedade, de indiferença pelo próximo, de sede de protagonismo vazio, que multiplica exponencialmente a esteira dos excluídos, evocando com gratidão o Dr. Sizenando, saibamos honrar em verdade a sua memória, tomando como seu testamento espiritual a obrigação de remarmos contra esta maré, cooperando na construção de uma sociedade verdadeiramente solidária, trabalhando por um tecido de relações de proximidade e atenção, de dedicação e generosidade.

Obrigado pela vossa atenção.


A esta iniciativa, que pecou apenas por ser tardia, logo a Banda se associou com entusiasmo e reconhecimento. A Banda Velha União Sanjoanense muito lhe deve e aqui torna pública a sua gratidão.
S. João de Loure jamais poderá esquecer este Homem, que para além de tudo levou o nome da freguesia a todo o lado onde se falasse do Médico, que “adivinhava” as maleitas e as necessidades de cada um, tal era a sua perspicácia.
Era bom que alguém escrevesse a sua biografia, enquanto existem pessoas que com ele conviveram.

A foto da Família Sizenando, com filhos, netos e bisnetos.